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“Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo, ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. Não desprezo nada que tenha visto, todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos, destelho as casas penduradas na terra, tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando. Desloco as consciências, a rua estala com os meus passos, e ando nos quatro cantos da vida. Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido, não posso amar ninguém porque sou o amor, tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigo. Sou o espírito que assiste à Criação e que bole em todas as almas que encontra. Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo. Nada me fixa nos caminhos do mundo.” TUPINIQUICES Ou SONHO, LOGO EXISTO Por OTACÍLIO MELGAÇO eclesiastamente louvora MURILO MENDES COMPENDITO POÉTICO I Homo Brasiliensis O homem É o único animal que joga no bicho. Canção do Exílio Minha terra tem macieiras das Califórnia onde cantam gaturamos de Veneza. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista, os sargentos do exército são monistas, cubistas, os filósofos são polacos vendendo a prestações. A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos. Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda. Eu morro sufocado em terra estrangeira. Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade e ouvir um sabiá com certidão de idade! Amostra da Poesia Local Tenho duas rosas na face, Nenhuma no coração. No lado esquerdo da face Costuma também dar alface, No lado direito não. O Farrista Quando o almirante Cabral Pôs as patas no Brasil O anjo da guarda dos índios Estava passeando em Paris. Quando ele voltou de viagem O holandês já está aqui. O anjo respira alegre: "Não faz mal, isto é boa gente, Vou arejar outra vez." O anjo transpôs a barra, Diz adeus a Pernambuco, Faz barulho, vuco-vuco, Tal e qual o zepelim Mas deu um vento no anjo, Ele perdeu a memória... E não voltou nunca mais. A Pescaria Foi nas margens do Ipiranga, Em meio a uma pescaria. Sentindo-se mal, D. Pedro – Comera demais cuscuz – Desaperta a barriguilha E grita, roxo de raiva: "Ou me livro d’esta cólica Ou morro logo d’ua vez!" O príncipe se aliviou, Sai no caminho cantando: "Já me sinto independente. Safa! vi perto a morte! Vamos cair no fadinho Pra celebrar o sucesso." A Tuna de Coimbra surge Com as guitarras afiadas, Mas as mulatas dengosas Do Club Flor do Abacate Entram, firmes, no maxixe, Abafam o fado com a voz, Levantam, sorrindo, as pernas... E a colônia brasileira Toma a direção da farra. O Brasileiro D. Pedro II ou No Brasil não há pressa Uma vasta sonolência Invade toda a fazenda. Sucedem-se os ministérios, As guerrilhas se sucedem Pro povo se divertir. A Corte faz pic-nics, Ou organiza quadrilhas Nos bailaricos reais. A Inglaterra intervém No mercado de finanças, Todos acham muito bom. Houve entrudos famosíssimos... O imperador, de pijama, Lê o Larrousse na rede. O fato é que com essa calma Cinqüenta anos se agüentou. Perspectiva da Sala de Jantar A filha do modesto funcionário público dá um bruto interesse à natureza morta da sala pobre no subúrbio. O vestido amarelo de organdi distribui cheiros apetitosos de carne morena saindo do banho com sabonete barato. O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração: papel ordinário representando florestas com tigres, uma Ceia onde os personagens não comem nada, a mesa com a toalha furada a folhinha que a dona da casa segue o conselho e o piano que eles não têm sala de visitas. A menina olha longamente pro corpo dela como se ele hoje estivesse diferente, depois senta-se ao piano comprado a prestações e o cachorro malandro do vizinho toma nota dos sons com atenção. O Banquete O vereador conseguiu ganhar as eleições. Os chefes e aliados políticos Promoveram um banquete Que deveria contar cem talheres. Depois foram ver, Na cidade só tinha, vejam só, Quarenta pessoas de destaque. Afinal chegou o dia do banquete Quem comia mais era o promotor Ao som da banda de música. Todo o mundo comentava O brilhante futuro do vereador. Na hora do champagne O promotor se levantou Para fazer o brinde de honra Ao presidente da República. O promotor deu um estouro tão grande Que os convidados, os talheres E as galinhas que sobravam Fugiram a toda velocidade Com o fotógrafo atrás. Só ficou um repórter Que telegrafou pra capital Afirmando que o banquete Foi mais uma bruta prova de apoio Ao nosso glorioso presidente. Linhas Paralelas Um presidente resolve Construir uma boa escola Numa vila bem distante. Mas ninguém vai nessa escola: Não tem estrada pra lá. Depois ele resolveu Construir uma estrada boa Numa outra vila do Estado. Ninguém se muda pra lá Porque lá não tem escola. Noturno Resumido A noite suspende na bruta mão que trabalhou no circo das idades anteriores as casas que o pessoal dorme comportadinho atravessado na cama comprada no turco a prestações. A lua e os manifestos de arte moderna brigam no poema em branco. A vizinha sestrosa da janela em frente tem na vida um camarada que se atirou dum quinto andar. Todos têm a vidinha deles. As namoradas não namoram mais porque nós agora somos civilizados, andamos no automóvel gostoso pensando nu cubismo. A noite é uma soma de sambas que eu ando ouvindo há muitos anos. O tinteiro caindo me suja os dedos e me aborrece tanto: não posso escrever a obra-prima que todos esperam do meu talento. A Cartomante Minhas pernas circulavam num céu de sabão, quando uma mulher que de tão morena parecia a estátua da Fatalidade plantou-se diante de mim. Imediatamente nasceram dois baralhos de suas mãos. Diversos senadores, choferes, estudantes, operários e o núncio apostólico suicidaram-se na frente dela. Eu também devo ter me suicidado, só que o poeta é o tipo do sobrevivente. Ela ainda agarrou pela aba do roupão o banhista José, mas o herói deslizou na primeira onda de som e caiu no mar. A mulher soltava mentiras a todo instante. Cada vez que ela soltava uma mentira, nascia uma roseira. Em breve a praça tornou-se coalhada de roseiras com seus cinemas, suas confeitarias, seus bordéis, seus anúncios luminosos, seus bancos, suas guilhotinas. Os peixes cintilavam no céu, e, movendo graciosamente as barbatanas, faziam vibrar a música das esferas. Diante do espetáculo da ordem da criação, meu espírito bárbaro levantou as camadas de sífilis e de pesadelo que me legaram os retratos de meus avós cretinos, e gritou diante do mar coalhado de paquetes: "Mulher que pareces contemporânea do 1o tempo do espírito, explique-me, ô anjo máquina de costura-caos, por que existe um limite para a desarmonia; por que os anjos não atropelam os geômetras na rua; por que os capitalistas nas suas casas; por que as diabas-antenas não atropelam os músicos nas suas cabeças; por que a minha namorada não me matou". Aposto um mamão contra a eternidade que a mulher ia responder; mas um aeroplano que passava atirou uma bomba de tinta Eureka na cabeça dela. O ar ficou tão lavado e transparente que eu pude distinguir com nitidez a linha que vai do equador ao pólo; em cima dela um japonês se equilibrava, jogando bilboquê com a cabeça de um chinês. O Mundo Inimigo O cavalo mecânico arrebata o manequim pensativo que invade a sombra das casas no espaço elástico. Ao sinal do sonho a vida move direitinho as estátuas que retomam seu lugar na série do planeta. Os homens largam a ação na paisagem elementar e invocam os pesadelos de mármore na beira do infinito. Os fantasmas vibram mensagens de outra luz nos olhos, expulsam o sol do espaço e se instalam no mundo. Pré-História Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som, Equilibrou-se no azul, De tonta, não mais olhou Para mim, para ninguém: Cai no álbum de retratos. Paisagem Do sino vazio Voam esquadrilhas de pássaros. No oco da lâmpada Irrompe a floresta (Ninguém para me asfixiar). O quarto caminha Até o fundo do horizonte. O espelho se contrai, Vãos ornamentos, Pernas tronco soluços. A Fatalidade Um moço azul atirou-se de um jasmineiro Os sinos perderam a fala A fértil sementeira de espadas Atrai o olhar das crianças. Não existem mais dimensões Nem cálculos possíveis O vento caminha A léguas da história As rosas quebram a vidraça. Demoliram uma mulher A sons de clarinete. Escrevo para me tornar invisível, Para perder a chave do abismo. A Cadeira Elétrica Uma noite – talvez avisem no jornal – Apertarei um botão no rochedo de carne, O mar jorrará assim, aos borbotões, Das minhas veias onde desliza modesto e manso, sem fazer barulho. Alguém oferecerá o socorro das padiolas Da terra vermelha, talvez não atenderei. Várias figueiras murcharão de inveja, Os clarins das vitrolas anunciarão inutilmente Que estou morre não morre, ninguém escutará. As árvores – noivas que eu nunca amei dia nenhum Torcerão a cabeleira, as filhas do relâmpago Virão me buscar – o noivo está chegando –, Mas eu preferia que num canto anônimo do mundo Alguma menina meiga e pensativa Desfolhasse um malmequer em minha intenção. Entrada no Sanatório Perdi o braço de Maria da Saudade. As montanhas do lado avesso Recebem relâmpagos furiosos. Cai um dossel de água no meu quarto. Anunciam que Londres está falando, Mas só se pode ouvir o trovão. Estremecem no horizonte cores inesperadas, O vento inquisidor ensaia vozes mistas. O espectro de Ismael Nery empurra a noite de Correias. De manhã sou acolhido por um coro de tosses, martelos e serrotes. As formas e as flautas celestes Comportam-se à altura dos acontecimentos. Overmundo Os pinheiros assobiam, a tempestade chega: Os cavalos bebem na mão da tempestade. Amarro o navio no canto do jardim E bato à porta do castelo na Espanha. Soam os tambores do vento. "Overmundo, Overmundo, que é dos teus oráculos, Do aparelho de precisão para medir os sonhos, E da rosa que pega fogo no inimigo?" Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante, Que anda, voa, está em toda a parte E não consegue pousar em ponto algum. Observai sua armadura de penas E ouvi seu grito eletrônico. "Overmundo expirou ao descobrir quem era", Anunciam de dentro do castelo na Espanha. "O tempo é o mesmo desde o princípio da criação", Respondem os homens futuros pela minha voz. O Pastor Pianista Soltaram os pianos na planície deserta Onde as sombras dos pássaros vêm beber. Eu sou o pastor pianista, Vejo ao longe com alegria meus pianos Recortarem os vultos monumentais Contra a lua. Acompanhado pelas rosas migradoras Apascento os pianos: gritam E transmitem o antigo clamor do homem Que reclamando a contemplação, Sonha e provoca a harmonia, Trabalha mesmo à força, E pelo vento nas folhagens, Pelos planetas, pelo andar das mulheres, Pelo amor e seus contrastes, Comunica-se com os deuses. Poema Barroco Os cavalos da aurora derrubando pianos Avançam furiosamente pelas portas da noite. Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos, Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes. O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas E ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das vitórias Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros Atravessam o céu de açucenas e bronze. Preciso conhecer os porões da minha miséria, Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima, Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos, E amordaçar a indefesa e nua castidade. É então que viro a bela imagem azul-vermelha: Apresentando-me o outro lado coberto de punhais, Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos, Aponta seu coração e também pede auxílio. A Inicial Os sons transportam o sino. Abro a gaiola do céu, Dei vida àquela nuvem. As águas me bebem. As criações orgânicas Que eu levantei do caos Sobem comigo Sem o suporte da máquina, Deixam este exílio composto De água, terra, fogo e ar. A inicial da minha amada Surge na blusa do vento. Refiz pensamentos, galeras... Enquanto a tarde pousava O candelabro aos meus pés. Estudo Quase Patético O vento em ré maior Prepara o temporal, Desfolha as estátuas, Parte as hélices dos anjos. Ah! quem é que namora As filhas dos açougueiros? Sempre que passo Diante de um açougue Vejo a filha do açougueiro De olhos baixos, tão triste. O temporal arranca os postes do lugar, Os peixes pulam na atmosfera, A luz elétrica protesta no caos. As ondas com trabalho Avançam contra o farol, Os quatro elementos em itálico Anunciam a vinda do Anticristo – Um som de piano Se mantém na desordem –, Em vez do reclamo KODAK Se lê JUÍZO FINAL, Mas eu não posso esquecer As filhas dos açougueiros. Estudo para um Caos O último anjo derramou seu cálice no ar. Os sonhos caem na cabeça do homem, As crianças são expelidas do ventre materno, As estrelas se despregam do firmamento. Uma tocha enorme pega fogo no fogo, A água dos rios e dos mares jorra cadáveres. Os vulcões vomitam cometas em furor E as mil pernas da Grande dançarina Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo. Rachou-se o teto do mar em quatro partes: Intintivamente eu me agarro no abismo. Procurei meu rosto, não o achei. Depois a treva foi ajuntada à própria treva. Tédio na Varanda Hesito entre as ancas da morena Deslocando a rua, E o mistério do fim do homem, por exemplo. Dormir! As camélias lambem O sexo dos teus lábios. Os pássaros da vertigem Bicam estátuas de pano. O mar fala a língua do p Enquanto eu não tenho Pés de vento Mãos de metal. As botas de sete pedras Comem léguas de aborrecimento. Radiograma O gigante despenteia o mar das Antilhas A lua se levanta pálida como a musa Não há notícias do fogo Dormem algumas constelações Passam ao largo netas de ondas cascos de sereias É difícil ficar sozinho. A Palavra Lisol A letra L fornece pensamento às pedras Enquanto os anjos da Assistência Pensam em parar o automóvel. Quem virá na curva da rua? Pode vir o gigante da Guatemala, Pode saltar das órbitas do vestido O seio de uma doente. Posso eu mesmo parar na esquina da rua, Entrar subitamente no automóvel Aos gritos E, derrubando os anjos da Assistência, Boxear com a eternidade. O Poeta Marítimo A noite vem de Bornéu Clotilde se enrola no astracã A tempestade lava os ombros da pedra O grande navio ancora nos peixes dourados Um menino serve-se da história de Robinson Alguém grita Pedindo uma outra vida um outro sonho Um outro crime Entre o amor e o álcool Entre o amor e o mar. Ouve-se distintamente O respirar das hélices O céu inventou o vento A sereia enrola o mar com o rabo. Poema Espiritual Eu me sinto um fragmento de Deus Como sou um resto de raiz Um pouco de água dos mares O braço desgarrado de uma constelação. A matéria pensa por ordem de Deus, Transforma-se e evolui por ordem de Deus. A matéria variada e bela É uma das formas visíveis do invisível. Cristo, dos filhos do homem és o perfeito. Na Igreja há pernas, seios, ventres e cabelos Em toda a parte, até nos altares. Há grandes forças de matéria na terra no mar e no ar Que se entrelaçam e se casam reproduzindo Mil versões dos pensamentos divinos. A matéria é forte e absoluta Sem ela não há poesia. A Graça Desaba uma chuva de pedras, uma enxurrada de estátuas de ídolos caindo, manequins descoloridos, figuras vermelhas se desencarnando dos livros que encerram as ações dos humanos. E o meu corpo espera sereno o fim deste acontecimento, mas a minha alma se debate porque o tempo rola, rola, rola. Até que tu, impaciente, rebentas a grade do sacrário; e me estendes os braços: e posso atravessar contigo o mundo em pânico. E o arco-de-deus se levanta sobre mim, criação transformada. A Tentação Diante do crucifixo Eu paro pálido tremendo: "Já que és o verdadeiro filho de Deus Desprega a humanidade desta cruz". O Átomo Agasalha-me à sombra do teu corpo. Aninha-me entre teus seios, Aquece-me no calor do teu ventre. Coisa ínfima, quero ficar perto de ti: Pássaro que fugiu da tempestade. Eu sou uma moeda que Deus deixou rolar no chão. A Visitação Cordeirinha de Deus levanta-se Maria. Galga morros a visitar nossa prima Isabel. Esta, mal a saúda em terno abraço, Nas suas entranhas estremece João. E, vibrando, exclamou em alta voz: "Bendita és tu no meio das mulheres, Bendito o Salvador que nasce do teu ventre". As cornamusas soam dos pastores. Diz Maria: "Minha alma engrandece o Senhor Que do trono depôs os poderosos E até Ele os humildes elevou. Aos famintos encheu a mão de bens E os ricos deixou vazios, nus". Também os dois meninos se visitam. São João da Cruz Viver organizando o diamante (Intuindo sua face) e o escondendo. Tratá-lo com ternura castigada. Nem mesmo no deserto suspendê-lo. Mas Viver consumido da sua graça. Obedecer a esse fogo frio Que se resolve em ponto rarefeito. Viver: do seu silêncio se aprendendo. Não temer sua perda em noite obscura. E, do próprio diamante já esquecido, Morrer, do seu esqueleto esvaziado: Para vir a ser tudo, é preciso ser nada. Pentecostes Um vento impetuoso que ninguém sabe de onde vem Penetra na sala rústica onde estão os apóstolos, Sopra sobre todos, entra neles de alto abaixo; Há uma transfusão de almas inesperada. O vento sopra mais, divide-se em línguas de fogo, Abre o espírito dos homens, renovando a terra. O vento continua implacável a soprar, Sai da sala, percorre cidades, desertos e planícies, Levanta igrejas, conventos, hospitais, Cura leprosos, ressuscita agonizantes e mortos, Atravessa os tempos, continua soprando, circular, Move minha alma que move meu corpo que move minha pena, Impele de novo os homens ao fim supremo E continuará amanhã e até a consumação das eras Levando a todos o espírito de luz consolador. A Esfinge Ó Deus Eu nasci para ser decifrado por ti. Com um pé no limbo, o coração na estrela Vênus e a cabeça na Igreja Espero tua resposta desde o princípio do mundo. Também tu nasceste para mim: Com tua medalha ao peito, para não esquecer minha origem, Percorro arfando este deserto. A palavra definitiva deverá surdir de teus lábios Ao menos no instante da minha morte. A Testemunha O céu se retira como um livro que se enrola. Um anjo blindado solta os sete pecados mortais. Mulheres-cavalos galopam furiosamente nas ruas, Homens ajoelham-se diante do sexo duma fêmea, Outros diante de um ídolo de ouro e prata. Poderosos refletores iluminam milhares de sovacos. Quem passeia no mar, quem sonha no mar Se o mar está tinto do sangue derramado das virgens? Mil fanáticos fuzilam o coração de Jesus. Chacais hienas e urtigas invadem a alma dos ditadores. Crianças nascem nos tanks ao som de um clarim. As cidades transbordam de famintos, Famintos de comida e da palavra de consolo. Poeta, cobre-te de cinzas, volta à inocência, Impede que se derrame o cálice da ira de Deus, Tu que és a testemunha e que sustenta o candelabro, Monta o cavalo branco e reconstrói o altar Onde se transforma pão em vinho, Indica à turba as profecias que se hão de cumprir, Revela aos presos olhando através das grades Que o mundo será mudado pelo fogo do Espírito Santo, Descerra os véus da Criação, mostra a face do Cristo. O Exilado Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo. Os sentidos em alarme gritam: O demônio tem mais poder que Deus. Preciso vomitar a vida em sangue Com tudo o que amaldiçoei e o que amei. Passam ao largo os navios celestes E os lírios do campo têm veneno. Nem Job na sua desgraça Estava despido como eu. Eu vi a criança negar a graça divina Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos E a multidão me apontando como o falso profeta. Espero a tempestade de fogo Mais do que um sinal de vida. Bar A mariposa atrai a lâmpada Um violinista manifesta saudades De uma mulher que se matou na Escandinávia Um garoto pede um copo d’água Que nunca vem Imaginemos a água Com suas povoações, animais e venenos A menina da caixa oxigenou o cabelo (Os homens preferem as louras) A garçonete com sede de amor Serve os que têm sede de chope Ouve-se um canto de guerra. As Lavadeiras As lavadeiras no tanque no noturno Não responderam ao canto da sibila. "Lavamos os mortos, Lavamos o tabuleiro das idéias antigas E os balaústres para repouso do mar... Quem nos desviará do nosso canto obscuro? Nele encontramos restos de galeras, Nele descobrimos o augusto pudor do vento, O balanço do corpo do pirata com argolas, Nele promovemos a sede do povo E excitamos a nossa própria sede..." As lavadeiras no tanque branco Lavam o espectro da guerra. Os braços das lavadeiras No abismo noturno Vão e vêm. Acordar Passo a mão pela cabeça A tempo de ver sumir a última estrela: A manhã veste a camisa. Levanto-me vacilando do leito-navio, Primeiros pássaros oboés. O monumento do Tempo Avança feroz para mim. Sou meu próprio irmão, um homem Que ainda não foi fuzilado. Apalpo-me Sou eu mesmo Quase acordei. Poema Presente O céu púbere e profundo Ajunta nuvens de fogo À tendência dos homens, inquietante: E um pensamento de guerra Anula o que poderia vir Da água, da rosa, da borboleta. Vergéis tranqüilos Disfarçam espadas. Sombras pedindo corpos Esperam desde o dilúvio O sopro de um puro espírito. Separam a luz da luz. Abismo Todos me indicaram o caminho contrário. Bebi na música E fechei-me a sós com o sonho. Quando acordei Haviam destruído os gramofones E a treva anterior envolvia a cidade. O mar passeava nos braços Uma pulseira de mortos. Abri um pé de magnólia Dando sombra ao Minotauro. Desde então Meu peito é uma zona de guerra, Fiz um eixo com as estrelas. A poesia em pára-quedas Tanto desce quanto sobe. Idílio A noite adulta abre os cachos de pensamentos Na árvore convulsionada dos amantes Suspensos pelas últimas notícias de guerra. Ao longo do corpo flexível da moça magra Perpassam reflexos de aviões, o amor é triste. Os pianos viram tambores rufando a marcha Danúbio Vermelho E os antigos portões de madressilva São entradas disfarçadas para os subterrâneos Onde a família ansiosa se reúne A fim de ensaiar máscaras contra gases mortíferos. O Utopista Ele acredita que o chão é duro Que todos os homens estão presos Que há limites para a poesia Que não há sorrisos nas crianças Nem amor nas mulheres que só de pão vive o homem que não há um outro no mundo. Perturbação No limiar do vento hesito: A lembrança dum antigo amor Me arrepia e espanta as borboletas. Estamos transidos de melancolia Como numa gravura do ano de 1613. Ouve-se uma conversa atrás do abismo É Jerônimo o florista Com a nora do peixeiro. Desta varanda se descortina o mar noturno Poderoso. Entretanto existe alguém mais forte ainda Carregando conchas de mortos: O fantasma mecânico da guerra Que passa Com seu penacho de fumaça e sangue. Aproximação do terror 1 Dos braços do poeta Pende a ópera do mundo (Tempo, cirurgião do mundo): – O abismo bate palmas, A noite aponta o revolver. Ouço a multidão, o coro do universos, O trote das estrelas Já nos subúrbios da caneta: As rosas perderam a fala. Entrega-se a morte a domicílio. Dos braços... Pende a ópera do mundo. 2 Tenho que dar de comer ao poema. Novas perturbações que me alimentam: Nem tudo o que penso agora Posso dizer por papel e tinta. O poeta já nasce conscrito, Atento às fascinantes inclinações do erro, Já nasce com as cicatrizes da liberdade. O ouvido soprando sua trompa Percebe a galope A marcha do número 666. Palpo a Quimera O tremor E os jasmins da palavra "jamais". 3 Dos telhados abstratos Vejo os limites da pele, Assisto crescerem os cabelos dos minutos No instante da eternidade. Vejo, ouvindo, ouço vendo. Considero as tatuagens dos peixes, O astro monossecular. Os rochedos colocam-se máscaras contra pássaros asfixiantes. A grande Babilônia ergue o corpo de dólares. Ruído surdo, o tempo oco a tombar... A espiral das gerações cresce. Anonimato Uma mulher na varanda Se debruça sobre o mar Contempla as gaivotas gêmeas Espera uma carta de amor Brilha o cemitério aéreo As nuvens jogam boxe Passam meninas cantando Não sabem que sou poeta E o amor que existe em mim. Poema da Tarde A tarde move-se entre os galhos das minhas mãos. Uma estrela aparece no fim do meu sangue, Minha nuca recebeu o hálito fino de uma rosa branca. Todas as formas servem-se mutuamente, Umas em pé, outras se ajoelhando, outras sentadas, Regando o coração e a cabeça do homem: E dentre os primeiros véus surge Maria da Saudade Que, sem querer, canta. Metade Pássaro A mulher do fim do mundo Dá de comer às roseiras, Dá de beber às estátuas, Dá de sonhar aos poetas. A mulher do fim do mundo Chama a luz com um assobio, Faz a virgem virar pedra, Cura a tempestade, Desvia o curso dos sonhos, Escreve cartas ao rio, Me puxa do sonho eterno Para os seus braços que cantam. Gilda Não ponha o nome de Gilda na sua filha, coitada, Se tem filha pra nascer Ou filha pra batisar. Minha mãe se chama Gilda, Não se casou com meu pai. Sempre lhe sobra desgraça, Não tem tempo de escolher. Também eu me chamo Gilda, E, pra dizer a verdade Sou pouco mais infeliz. Sou menos do que mulher, Sou uma mulher qualquer. Ando à-toa pelo mundo. Sem força pra me matar. Minha filha é também Gilda, Pro costume não perder É casada com o espelho E amigada com o José. Qualquer dia Gilda foge Ou se mata em Paquetá Com José ou sem José. Já comprei lenço de renda Pra chorar com mais apuro E aos jornais telefonei. Se Gilda enfim não morrer, Se Gilda tiver uma filha Não põe o nome de Gilda, Na menina, que não deixo. Quem ganha o nome de Gilda Vira Gilda sem querer. Não ponha o nome de Gilda No corpo de uma mulher. Uma Mulher Ela estava no círculo familiar como as outras, Folheando um livro de gravuras: A noite nos cercava com seus abismos azuis E a idéia de quase uma floresta próxima. Alguém acendeu um candeeiro de petróleo, As pessoas presentes recuaram no tempo. Ela se levantou para abrir uma vidraça, E muito branca, toda vestida de preto, Seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes, Fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota, Hélices mexendo, mãos a correr no teclado. Quando sentou-se era outra vez a mulher. A Irmã Sobrenatural Esperei-te desde o princípio, Desde antes da vinda do dilúvio, Desde o mundo dos manequins e bilboquês. Uma noite o cometa Halley apareceu E eu pensei que tu viesses nele. Os desertos se desdobravam ante meus olhos Até que um enviado revelou-te a mim. E eu dou testemunho de ti: És bela, sábia e casta, Um misto de colegial, de madona e de sibila. És minha irmã escolhida Não pela herança do sangue. E nossas almas se abraçam harmonicamente Sem a sucessão dos tempos. Elementos Quantas coisas que amo me apavoram E outras indiferentes me elucidam. Desde menino descobri a mulher, E à sua sombra hostil e fascinante Criei terror. a bola de cristal Olhava-a fixamente, maginando: Via maio de abrir, peixes rodavam No fundo azul das solidões marinhas. Que infância renascia das roseiras! – Mas no corpo dos bichos ensaiei A futura experiência da crueldade Que se repete pelo tempo afora. Como não revelava as aventuras, A poesia do segredo conheci. Jandira O mundo começava nos seios de Jandira. Depois surgiram outras peças da criação: Surgiram os cabelos para cobrir o corpo, (Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos). E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo. E surgiram sereias da garganta de Jandira: O inteirinho ficou rodeado de sons Mais palpáveis do que pássaros. E as antenas das mãos de Jandira Captavam objetos animados, inanimados, Dominavam a rosa, o peixe, a máquina. E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar Quando Jandira penteava a cabeleira... Depois o mundo desvendou-se completamente, Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos. E Jandira apareceu inteiriça, Da cabeça aos pés. Todas as partes do corpo tinham importância. E a moça apareceu com o cortejo do seu pai, De sua mãe, de seus irmãos. Eles é que obedecem aos sinais de Jandira Crescendo na vida em graça, beleza, violência. Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira E eram precipitados nas delícias do inferno. Eles jogavam por causa de Jandira, Deixavam noivas, esposas, mães Por causa de Jandira. E Jandira não tinha pedido coisa alguma. E vieram retratos no jornal E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira. Certos namorados viviam e morriam Por causa de um detalhe da boca de Jandira. Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira. Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira. E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas; Não caía nem um fio, Nem ela os aparava. E sua boca era um disco vermelho Tal qual um sol mirim. Em roda do cheiro de Jandira A família andava tonta. As visitas tropeçavam nas conversações Por causa de Jandira. E um padre na missa Esqueceu de fazer o sinal da cruz por causa de Jandira. E Jandira se casou. E seu corpo inaugurou uma vida nova, Apareceram ritmos que estavam de reserva, Combinações de movimento entre as ancas e os seios. À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo. E o marido de Jandira Morreu na epidemia da gripe espanhola. E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela. Desde o terceiro dia o marido Fez um grande esforço para ressuscitar: Não se conforma, no quarto escuro onde está, Que Jandira viva sozinha, Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade E que ele fique ali à toa. E as filhas de Jandira Inda parecem mais velhas do que ela. E Jandira não morre, Espera que os clarins do juízo final Venham chamar seu corpo, Mas eles não vêm. E, mesmo que venham, o corpo de Jandira Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente. Panorama Uma forma elástica sacode as asas no espaço e me infiltra a preguiça, o amor ao sonho. Num recanto da terra uma mulher loura enforca-se e vem no jornal. Uma menina de peito largo e ancas finas sai do fundo do mar, sai daquele navio que afundou e vira uma sereia. A filha mais moça do vizinho lá está estendida no caixão na sala de visita com paisagem, um cheiro enjoado de angélica e meus sentidos pêsames. Tudo está no seu lugar minha namorada está sozinha na janela o sonho está dormindo na cabeça do homem o homem está andando na cabeça de Deus, minha mãe está no céu em êxtase, eu estou no meu corpo. As Núpcias Falhas Catarina comia bife a cavalo, eu comia bife a pé. Catarina andava de bicicleta, eu andava a pé. Catarina dispunha de um enorme armário onde arrumava todos os seus pertences, eu dispunha de uma cômoda anã. Catarina depilava a axila com uma lâmina gilete, eu fazia a barba no salão Veneza. Catarina torcia pelo Botafogo, eu não torcia por clube nenhum. Catarina era Tom Mix, eu era Greta Garbo. Catarina tinha um amigo sobressalente, eu não tinha amiga sobressalente nenhuma. Catarina babava-se por doce de leite, eu, por compota de caju. Catarina gostava de farda, eu gostava de short. Catarina jogava tênis, eu jogava bilboquê. Catarina sonhava tecnicolor, eu sonhava em preto e branco. Depois de onze meses de agridoce convivência, persuadidos da diversidade de nossos gostos e temperamentos, ajudados por uma cartomante resolvemos destruir o noivado. Consolei-me pensando no caso de Kierkegaard que, embora por outros motivos, resolveu também destruir o seu. Chuva em Castela A Gerardo Diego A história circula insatisfeita Ao largo da planície autárquica. * Entre a marcha das amapolas Se orientam Se levantam Os pés aquedutos. Chove a galope Cavalos horizontais Sacando o preto do branco Chovem a galope. Alturas compactas se procuram Parte-se o galope em fragmentos. As Ruínas de Selinunte Correspondendo a fragmentos de astros, A corpos transviados de gigantes, A formas elaboradas no futuro, Severas tombando Sobre o mar em linha azul, as ruínas Severas tombando Compõem, dóricas, o céu largo. Severas se erguendo, Procuram-se, organizam-se, Em forma teatral suscitam o deus Verticalmente, horizontalmente. Nossa medida de humanos – Medida desmesurada – Em Selinunte se exprime: Para a catástrofe, em busca Da sobrevivência, nascemos. A Marionete de Palermo De metal e plumas A mulher portátil, Gentilíssima, não fala. Às vezes tenta falar, mas dói. Levo-a comigo a toda parte, Regula com o meu anular. De metal e plumas Abro-a quando quero. É mantida pela nuvem, Mas o sopro do vento hesita No limiar dos seus joelhos. Ponho-a no meu ouvido, amortece O ruído giratório Que vem do céu de Palermo. Traz-me flores da Vila Giulia Ou dos seios. Nada sozinha, nada Contra o azul e o monte Pelegrino. Um dia ela me interpelará Com pés, mãos, dentes e pêlos: Diante da lucidez elaborada e vã, Triste com o rompimento da linha comum, Opaco morrerei. Ávila A José Bergamin O aeronauta conduz a bordo a palavra silêncio. Sobrevoamos Ávila, composição abstrata. O avião abrindo curvas dá guinadas Como os movimentos da alma na escrita de Santa Teresa. Ávila absorvida, surge Madrid à frente: Subimos agora as ladeiras da descida. * Volto a ver Ávila, contornada a pé. Em Ávila recebi minha ração de silêncio maior E pude decifrar o texto do meu enigma: Deus permitiu que eu cresça desde o início No espaço árido da minha fome e sede. Permitiu que eu tocasse o núcleo da minha origem, Eu que sou o não-figurativo, o não-nomeado, O não-inaugurado, o que sempre se perfaz, Nutrido pelo sol interior que acende o esqueleto; Alguém que é ninguém, De amor consumido pelo Nada ou Tudo, O que nunca abriu a boca nem supõe o milagre, Habita na aflição, na densidade, Sem Espanha e com Espanha. Que muero porque no muero. * Severa e castigada, Ávila funda O espaço criador do espaço, A pedra macha de Espanha Que cerra o segredo. O Rito Cruento Em Madrid numa praça de corridas Vi o toureiro confrontar-se à morte, Vida e morte se medindo, se ajustando Na condensada lâmina que divide O homem do animal: Neste rito de extrema precisão Vida e morte afrontadas se equilibram Ante o olho enxuto do toureiro E o gesto e a palavra (cúmplices) do público. Que a morte para o espanhol inda é hombridade. Na Corrida Soubesse eu distinguir O milésimo de instante Em que o olho do touro e do toureiro Se cruzam no vértice da luta, Conhecendo cada um Que irá matar, ou ser morto. Santiago de Compostela Santiago de Compostela isolada no campo, Mas na tua direção marchou a Europa Pesquisando paralelos Corpo e estrela. * Tocando Santiago recebemos o espaço, A visão da cidade em ferradura, O choque oval do Pórtico de la Gloria. Na Idade Média Participante da comunidade – Alegre – então me sentindo, Eu viria de longes terras tocar-te, Cavalgando monte e rio: Trazendo o bastão, a concha de Vênus E a gana diária de Deus. * No espaço monumental de Santiago A Espanha mede a esperança do homem, Mede o corpo do apóstolo, sua estrela concêntrica. Meditação de Agrigento Quem nos domara a força vã, quem nos sufocara o instinto Para permanecermos Em conformidade à linha do céu, A estas colunas perenes, Ao oculto mar lá embaixo. Quem nos transformara em folha Ou no súbito lagarto Que se esgueira sob tuas pedras, Templo F, sereno templo F, Arquitetura de reserva e paz. Transformar-se ou não, eis o problema. Durar na zona limite da memória, Nos limbos da vontade, Ou submeter a pedra, cumprir o ofício rude, Aprender do lavrador e do soldado. Qual a forma do poeta? Qual seu rito? Qual sua arquitetura? Mudo, entre capitéis e cactos Subsiste o oráculo. A manhã doura a pedra e vagos nomes, Agrigento me contempla, e vou-me. The Responsive Eye O olho responde ao ataque da luz. O olho responde à cor planificada. O olho responde ao ataque do olho. O olho agride com luvas. O olho irresponde à bomba atômica. O olho, alavanca do quadro. O olho responde à língua, ao ouvido. O olho não tateia: vai ao núcleo. O olho constrói no futuro. O olho dispara a câmara lenta, a câmara veloz. O olho espicaça meu poder de construção; por isto sofri de pintura informal como do duodeno. O olho amarelo expulsa o olhar azul. O olho do pintor resfolega. Joan Miró Soltas a sigla, o pássaro e o losango. Também sabes deixar em liberdade O roxo, qualquer azul e o vermelho. Todas as cores podem aproximar-se Quando um menino as conduz no sol E cria a fosforescência: A ordem que se desintegra Forma outra ordem ajuntada Ao real – este obscuro mito. Ao Aleijadinho Pálida a lua sob o pálio avança Das estrelas de uma perdida infância. Fatigados caminhos refazemos Da outrora máquina da mineração. É nossa própria forma, o frio molde Que maduros tentamos atingir, Volvendo à laje, à pedra de olhos facetados, Sem crispação, matéria já domada, O exemplo recebendo que ofereces Pelo martírio teu enfim transposto Severo, machucado e rude aleijadinho Que te encerras na tenda com tua Bíblia, Suplicando ao Senhor – infinito e esculpido – Que sobre ti descanse os seus divinos pés. Vermeer de Delft É manhã no copo: Tempo de decifrar o mapa Com seus amarelos e azuis, De abrir as cortinas – o sol frio nasce Nos ladrilhos silenciosos –, De ler uma carta perturbadora Que veio pela galera da China: Até que a lição do cravo Através de seus cristais Restitui a inocência. Harpa-Sofá (Um quadro de Vieira da Silva) Repousa na harpa-sofá A mulher com o filho pródigo, Sirène bleue nonchalante, Veio da terra de Siena Talvez medieval ou chinesa. Eis o grande no minúsculo: Da minha infância é que veio, Ou do tempo que virá. O Olho Precoce Ainda menino eu já colava pedaços da Europa e da Ásia em grandes cadernos. Eram fotografias de quadros e estátuas, cidades, lugares, monumentos, homens e mulheres ilustres. Meu primeiro contato com um futuro universo de surpresas. Colava também fotografias de estrelas e planetas, de um ou outro animal, e muitas plantas. Cedo começou minha fascinação pelos dois mundos, o visível e o invisível. E não escreveu São Paulo que este mundo é um sistema de coisas invisíveis manifestadas visivelmente? Não vivemos inseridos num contexto de imagens e signos? Confesso que uma boa parte desta minha incipiente diligência cultural baseava-se no interesse pela mulher, que remontava a tempos recuados da minha infância. Não me contentando em ver mulheres no meu ambiente, queria ainda ter ao menos imagens fotográficas de mulheres de outros países e outras épocas. Tratava-se não somente da fascinação pela mulher nua ou seminua, embora estas freqüentassem minha imaginação: era a mulher na variedade dos seus tipos, sua forma, sua indumentária. Um relevo especial mereciam as fotografias de cantoras, artistas dramáticas vestidas à grega, à romana, à oriental e à moda do Império. Lamentava também que a fotografia tivesse sido inventada tão tarde. Como seria por exemplo Ruth? Raquel? Semíramis? A rainha de Sabá? Cleópatra? Cedo atraíam-me as esfinges, as gárgulas, as medusas, as máscaras, as mascarilhas, as gigantas, as figuras de proa, as demônias, as participantes das metamorfoses de Shiva ou Vishnu, as sacerdotisas; paralelamente às pessoas em carne e osso, via figuras e pessoas míticas. O prazer, a sabedoria de ver, chegavam a justificar minha existência. Uma curiosidade, inextinguível pelas formas me assaltava e me assalta sempre. Ver coisas, ver pessoas na sua diversidade, ver, rever, ver, rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida. BIOGRAFISMO Murilo Monteiro Mendes nasceu em 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Fez as primeiras letras na terra natal e no Colégio Salesiano, em Niterói. Foi dentista, telegrafista, auxiliar de guarda-livros, notário e Inspetor Federal de Ensino. Sua estréia na literatura se deu em revistas do Modernismo, Terra Roxa e Outras Terras e Antropofagia. Em 1934, converteu-se ao Catolicismo e com Jorge de Lima dedicou-se à "restauração da poesia em Cristo". De 1953 a 1955 percorreu diversos países da Europa, divulgando, em conferências, a cultura brasileira. Em 1957, se estabeleceu em Roma, onde lecionou Literatura Brasileira. Participou do movimento Antropofágico, revelando-se um conhecedor da vanguarda artística européia. Ao mesmo tempo, manteve-se fiel às imagens mineiras, mesclando-as às da Sicília, Espanha, carregadas de história. Faleceu, em Portugal, em 1975. Murilo Mendes destaca-se pelo senso de modernidade. Seus poemas estão repletos de conteúdos originais e de imagens cotidianas, tingidas de surrealismo, linguagem religiosa e de preocupação com o social. Destacam-se, igualmente, os processos surrealistas e de montagem, abrindo espaço para a "seqüência onírica", obtida por meio de combinação associativa. A justaposição sintática e o emprego do simbólico dão cor e sentido aos versos. Os poemas, anteriores a l930, carregados de humor, apresentam a análise humorística do Brasil provinciano. Nos posteriores, em tom grave, o poeta revela o homem angustiado diante do Bem e do Mal e ultrapassando, algumas vezes, esse mesmo dilema, transporta-o para o plano metafísico. Em Tempo e Eternidade (1935), escrito em colaboração com Jorge de Lima, destaca-se a influência de Péguy e Claudel, impressa nas imagens terrestres, contrapostas ao tempo e espaço. Em outras obras, encontram-se a obsessão pelo caos, a presença do eterno-feminino, tensionada entre o profano e o sagrado, expostos que são pelas rupturas e colagens. Outras características são a exatidão métrica, o respeito à semântica, o emprego de séries compactas de nomes e verbos, encontrados em Contemplação de Outro Preto (1954). PRINCIPAIS OBRAS Poesia Poemas (1930); História da Brasil (1932); Tempo e Eternidade (1935) [em contribuição com Jorge de Lima]; A Poesia em Pânico (1938); O Visionário (1941); As Metamorfoses (1944); Mundo Enigma (1945); Poesia Liberdade (1947); Janela do Caos (1949); Contemplação de Ouro Preto (1954); Poesias (1925-1955); Siciliana (1959); Tempo Espanhol (1959); Antologia Poética (1964); Convergência (1970). Prosa O Discípulo de Emaús (1944); Na Idade do Serrote (1968) - memórias. COMPENDIETO POÉTICO II PRÉ-HISTÓRIA Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som, Equilibrou-se no azul, De tonta não mais olhou Para mim, para ninguém! Cai no álbum de retratos. CHORO DO POETA ATUAL Deram-me um corpo, só um! Para suportar calado Tantas almas desunidas Que esbarram uma nas outras, De tantas idades diversas; Uma nasceu muito antes De eu aparecer no mundo, Outra nasceu com este corpo, Outra está nascendo agora, Há outras, nem sei direito, São minhas filhas naturais, Deliram dentro de mi. Querem mudar de lugar. Cada uma quer uma coisa, Nunca mais tenho sossego. Ó Deus, se existis, juntai Minhas almas desencontradas. FILIAÇÃO Eu sou da raça do Eterno Fui criado no princípio E desdobrado em muitas gerações Através do espaço e do tempo. Sinto-me acima das bandeiras, Tropeçando em cabeças de chefes. Caminho no mar, na terra e no ar. Eu sou da raça do Eterno, Do amor que unirá os homens: Vinde a mim, órfãos da poesia, Choremos sobre o mundo mutilado. REFLEXÃO NÚMERO 1 Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio Nem ama duas vezes a mesma mulher. Deus de onde tudo deriva É a circulação e o movimento infinito. Ainda não estamos habituados com o mundo Nascer é muito comprido. A MULHER ANÔNIMA Lembra-te daquela mulher Que um dia te acenou do alto de uma varanda. Daquela forma admirável mas sem nome Que uma tarde te disse adeus Enquanto o automóvel parou um minuto na estrada. Lembra-te da mulher pouco decorativa, mulher simples Que não tiveste coragem de arrancar violento ao espaço E que certamente nunca mais tornarás a ver: Lembra-te da bela mulher que estremeceu por ti E sê-lhe fiel até o último dia da tua vida. METADE PÁSSARO A mulher do fim do mundo Dá de comer às roseiras, Dá de beber às estátuas, Dá de sonhar aos poetas. A mulher do fim do mundo Chama a luz com um assobio. Faz a virgem virar pedra, Cura a tempestade, Desvia o curso dos sonhos. Escreve cartas ao rio, Me puxa do sono eterno Para os seus braços que cantam. O POETA FUTURO O poeta futuro já se encontra no meio de vós, Ele nasceu da terra Preparada por gerações de sensuais e de místicos: Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos, Encerrando no espírito épocas superpostas. O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido. O poeta futuro já vive no meio de vós E não o pressentis. Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções E não permitirá que lago se perca, Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega, Transformando o aço da sua espada Em penas que escreverão poemas consoladores. O poeta futuro apontará o inferno Aos geradores de guerra, Aos que asfixiam órfãos e operários. ANTI-ELEGIA Nº 1 O dia e a noite são ligados pelo prazer E pelas ondas do ar A vida e a morte são ligadas pelas flores E pelos túneis futuros Deus e o demônio são ligados pelo homem. À MUSA Tu és a relação entre o poeta e Deus. Tu prefiguras uma imagem do Eterno porque a todo instante organizas o mundo. Sem ti minha poesia se extinguirá, Sem ti eu ficaria mirando as construções do tempo. Tu assistes aos movimentos da minha alma, E aumentas minha sede do ilimitado. Um dia, quando o Eterno me der a grande força, Prenderei tua cabeça entre as constelações A fim de orientar os poetas futuros. CANTO DO NOIVO Eu verei tuas formas crescerem pouco a pouco, verei tuas formas mudarem a cor, o peso, o ritmo, verei teus seios se dilatarem na noite quente, os olhos se transformarem quando brotar a idéia do primeiro filho. Assistirei ao desenvolver das tuas idades, guardando todos os teus movimentos. Já está na minha memória a menina mãe de bonecas, depois a que ficava de tarde na janela, e a que se alterou quando me conheceu, e a que está perto da união das almas e dos corpos. As outras virão. Tuas ancas hão de alargar, e os seios caídos, o olhar apagado, os cabelos sem brilho hão de te arrastar pra mais perto do sentido do amor, ó minha mártir, forma que eu destruí, integrada em mim. O FILHO DO SÉCULO Nunca mais andarei de bicicleta Nem conversarei no portão Com meninas de cabelos cacheados Adeus valsa "Danúbio Azul" Adeus tardes preguiçosas Adeus cheiros do mundo sambas Adeus puro amor Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem Não tenho forças para gritar um grande grito Cairei no chão do século vinte Aguardem-me lá fora As multidões famintas justiceiras Sujeitos com gases venenosos É a hora das barricadas É a hora da fuzilamento, da raiva maior Os vivos pedem vingança Os mortos minerais vegetais pedem vingança É a hora do protesto geral É a hora dos vôos destruidores É a hora das barricadas, dos fuzilamentos Fomes desejos ânsias sonhos perdidos, Misérias de todos os países uni-vos Fogem a galope os anjos-aviões Carregando o cálice da esperança Tempo espaço firmes porque me abandonastes. ADENDO Por onde anda Murilo? "A crítica não o esqueceu, mas o público em geral não dá a devida atenção à obra poética do mineiro Murilo Mendes — decorrência talvez da grande complexidade. Em 2001, como parte da celebração do centenário de nascimento do poeta Murilo Mendes, a editora Record relançou Tempo Espanhol e Poesia Liberdade. O projeto tem continuidade, este ano, com a reedição de As Metamorfoses, livro considerado exemplar de sua produção. Murilo Mendes (1901-1975), professor de Cultura Brasileira em Roma e em Pisa, estreou na literatura em 1930, como Carlos Drummond de Andrade. Os dois mineiros ocupam, porém, lugares muito distintos na acolhida dos leitores de poesia. Existe situação peculiar em torno à recepção da obra de Murilo Mendes. Sempre algum aficionado se queixa de que não foram queimados os devidos incensos nos altares de Murilo. A crítica não lhe teria prestado a merecida atenção. Seus livros estariam relegados e banidos de livrarias e universidades. Nessa linha de lamento e raciocínio, é comum estabelecer contraponto com a poesia de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Estes, sim, lembrados, estudados, reverenciados, na academia e fora dela, pois conquistaram — o primeiro, principalmente — admiração de amplo público. É função da crítica chamar a atenção para determinadas obras, partilhar experiências de leitura, desacomodar nossas interpretações. O efeito que exerce sobre modos de compreensão dos outros pode se dar por concordarmos com o crítico ou, ao contrário, por repelirmos seu julgamento e reforçarmos o nosso. A crítica registra e provoca. Muito mais do que isso, não faz. Se pode influir no valor de uma obra, ao apresentar critérios estéticos de julgamento, não se pode esquecer que essa avaliação nunca foi exclusividade da crítica institucionalizada. O valor da obra decorre de múltiplos juízos individuais. A decisão de compra de um livro dispensa, muitas vezes, o parecer especializado e baseia-se na recomendação de pessoas com as quais o leitor partilha posições, gostos e afetos. Não é verdade que a crítica esqueceu Murilo Mendes. Recebeu a atenção dos melhores críticos brasileiros. Sua poesia foi analisada por Mario de Andrade, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, José Guilherme Merquior, Luiz Costa Lima, Fábio Lucas, Silviano Santiago e muitos outros. Mas os poemas do poeta de Juiz de Fora não provocam a mesma empatia e identificação que os de Carlos Drummond de Andrade, seu colega de geração. Não caem fácil no gosto do público e, a julgar pela produção de teses dos últimos anos, não têm entusiasmado como tema de pesquisa. No entanto, esse abismo entre o interesse dos grandes críticos e a débil resposta do público constitui interessante fenômeno de recepção. Poeta que, como observou José Guilherme Merquior, percebe o mundo através de visões perturbadoras, na obra de Murilo Mendes convivem o insólito e o natural. Introdutor do surrealismo na literatura brasileira, suas composições são marcadas por estranhamento, irregularidade e ausência da lógica habitual. Justapõe imagens cuja conexão não é clara e, portanto, perturbam. Requerem esforço interpretativo. A sonoridade, por sua vez, causa estranheza: muita variação rítmica, certa rispidez nos versos. Além disso, o poeta evoca um sistema de referências que poucos leitores conhecem. As Metamorfoses remete, a partir do título, à obra clássica de Ovídio, poeta latino que viveu antes de Cristo, e à sua poesia assentada nos limites imprecisos das coisas e dos mundos. Publicado em 1944, o livro é moldado na religiosidade angustiada e na ânsia por transcendência de um católico pouco ortodoxo. Voltado a observar o eterno retorno do mesmo por via mítica, desvincula-se do tempo histórico e dos contornos do real. Jan Mukarovsky, ao estender os estudos sobre poesia do lingüístico para o social, conferiu ao público papel decisivo na vida da obra. Leitores a enquadram no rol de outras que a antecederam e, também, das que coexistem com ela. Aí, a identificação pode ocorrer ou não. O poético não reside só na obra, mas entre ela e a coletividade. As muitas faces da poesia de Murilo Mendes, o deslocamento em relação à tradição ainda desafiam o leitor. Sobre Murilo, dizem seus próprios versos: ‘‘O poeta futuro já se encontra no meio de vós./ Ele nasceu da terra/ Preparada por gerações de sensuais e de místicos:/ surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,/ encerrando no espírito épocas superpostas." (Ligia Cademartori) TUPINIQUICES Ou SONHO, LOGO EXISTO Por OTACÍLIO MELGAÇO armoria ocularmente Cego Aderaldo “O caos toma sentido/ visto da janela cosmorâmica/ onde ele se debruça/ para dentro para fora para o alto/ para o fundo/ para a organização do delírio/ em código de poesia.” (Carlos Drummond de Andrade saudando a poesia de Murilo Mendes) vide www.buritidosgerais.hpg.ig.com.br www.odialetico.hpg.ig.com.br/literatura/projeto.doc
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